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"Apenas o mais experiente..."


Recordista de participações em GPs, em 14 anos e 208 GPs nunca ficou sem carro para correr, nem nunca deixou de se qualificar. Correu em 41.6% de todos os GPs da história da F1 moderna! E quer continuar… Agora com outra visão da vida e da F1.


Quando Riccardo Patrese partiu para o Grande Prêmio da Grã-Bretanha desta temporada, viveu-se um momento marcante não só para o piloto italiano, mas também para a própria história da Fórmula 1.

Ao completar 200 largadas para Grandes Prêmios, o piloto da Williams-Renault, que desde o Grande Prêmio do Brasil de 1989 se tornara recordista em participações de provas de Fórmula 1, batendo o recorde partilhado por Jacques Lafitte e Graham Hill com 176 largadas, ultrapassou uma barreira por muitos julgada intransponível, garantindo para si um lugar importante no Livro de Ouro desta categoria.

Aos 36 anos, Riccardo Patrese é o mais experiente dos pilotos da F1. Por coincidência foi no GP da Grã-Bretanha que completou o seu duplo centenário no mesmo dia em que Nigel Mansell tomara a sua decisão de abandonar o “circo”, enquanto para o paduense, a F1 apesar de já não ser o centro da sua vida, continuará a ter suficiente interesse para continuar por ainda muito tempo: “Nunca tive problemas em me motivar, já porque este trabalho é sempre diferente e eu encontro desafios distintos a cada momento. Não sei até quando irei pilotar. Creio que será só quando me chatear com a F1 e deixar de ter prazer de pilotar.”

Se continuar por mais cinco anos, Riccardo irá conseguir participar na metade de todos os GPs da história. No final de 1990, com seus 208 GPs já havia participado em 41.6% de todos os GPs da história do Campeonato Mundial!


Piloto Difícil

Em 14 anos de atividade continuada nas provas do Campeonato do Mundo de Fórmula 1, Riccardo Patrese enfrentou diversos testes ao seu caráter, pois a sua carreira passou por numerosas vissitudes, poucas delas de índole positiva, o que reforça ainda mais o valor da marca atingida. De fato, ter-lhe-ia sido bem mais fácil renunciar, do que aguentar com a crítica geral e, pior ainda, com a indiferença a que foi votado pela generalidade dos seus pares. Muitas dessas críticas eram aliás, bem justificadas, pois Patrese foi durante anos uma autêntica “chicane móvel” para os pilotos mais rápidos quando o precisavam ultrapassar.

Com uma ascensão extremamente rápida, o Campeão do Mundo de Karting de 1974 encontrou-se ao volante de uma Shadow DN8 à largada para o GP de Mônaco de 1977, quando mal completara 23 anos. Muito agressivo e com uma combatividade um pouco além dos limites da razoabilidade, Patrese envolveu-se em alguns acidentes evitáveis, granjeando, rapidamente, a pouco apreciada fama de piloto perigoso.

Demasiado arrogante, ao tempo, para se preocupar com o que os outros pensavam dele, Riccardo Patrese, por se ter fechado em demasia sobre si próprio, acabou por sofrer as consequências do seu isolamento: “Ao princípio as pessoas tomavam a minha timidez como arrogância. Quando era jovem, tinha problemas para me expressar, para mostrar como realmente eu era. Agora já falo bem Inglês, e as pessoas começaram a conhecer-me melhor. Até 1984 a F1 comandava toda a minha vida. Algumas pessoas ficam felizes quando há sol, e tristes quando chove. Eu era assim: um sorriso no rosto depois de uma corrida boa, ou com cara fechada depois de uma prova ruim. E, naquela época haviam muito mais destas últimas…”


O Pesadelo de Monza

Quando um acidente que envolveu 14 carros logo após a partida para o GP da Itália de 1978 resultou na morte do sueco Ronnie Peterson, o jovem italiano viu-se imediatamente acusado pela imprensa especializada e por grande número dos seus companheiros de pista de ser o causador da impressionante carambola.

Habilidosamente liderados por algumas das figuras importantes da altura, os pilotos assinaram um documento em que recusavam a participação do italiano na prova seguinte, ficando este boicote, como Patrese reconhece abertamente, a ser a maior dor jamais sentida pelo homem.

“O episódio de Monza pertence ao passado. Esses momentos ruins ensinaram-me a reagir a situações semelhantes e pude sair dele com um caráter mais forte. Quando se é jovem e se está sujeito a grandes pressões, não é fácil.”


“Saí dessa mais forte”

O seu nome passou a ser sinônimo de periculosidade, e o próprio Patrese admite que ao sentir-se isolado, o jovem que ele era, endureceu a sua forma de estar na vida, tornando-se um verdadeiro solitário da Fórmula 1, sem que o seu talento como piloto fosse, em alguma ocasião, posto em causa.

Durante a sua primeira passagem pela Brabham, mesmo se foi normalmente dominado por Nelson Piquet, ao tempo verdadeiro “dono” da equipe, conquistou duas vitórias, mas isso foi insuficiente para satisfazer o italiano, que partiu para o desafio Alfa Romeo, aposta que se revelou um autêntico desastre, pois a organização de Pavanello esteve longe de ser, sequer, razoável.

A sua carreira atingiu, então, seu ponto mais baixo, mas dois homens permitiram ao já veterano Patrese regressar à ribalta: primeiro, Bernie Ecclestone, que sempre acreditara no seu talento, voltou a chama-lo para a Brabham, onde pode, quando o material permitiu, mostrar que ainda podia vencer; depois, Frank Williams, que o contratou para secundar Mansell em 1988.


Modificação de espírito

Com a partida do Inglês para a Ferrari, o italiano ficou a liderar a Williams-Renault nos últimos dois anos.

Entretanto, uma enorme modificação dera-se no homem. Depois do seu regresso à Brabham, e cansado de desesperar da sua sorte, que sempre lhe recusou material ganhador, o paduense de olhar nostálgico percebeu que havia algo mais na vida do que o restrito mundo da Fórmula 1.

A dedicada Simonetta (correção: o nome da esposa dele àquela época era Susy), o filho de 13 anos e as duas filhas gêmeas que tiveram, proporcionavam a estabilidade emocional e o ambiente tranquilo que Patrese começou, pouco a pouco, a desfrutar, com todas as repercussões que isso pode ter. De pouco sociável, o italiano transformou-se num dos personagens mais cativantes do “Circo”, patenteando uma gentileza longamente escondida.

Os seus três anos com a Williams provaram a todos que, com o equipamento certo, Patrese é um piloto ganhador, e, por isso mesmo, o italiano não se sente ameaçado pelo regresso de Mansell à equipe Inglesa em 1991. Para ele, ajudar o seu “team” a desenvolver todo o seu potencial, realizar um trabalho digno como profissional e aproveitar as coisas boas da vida são, agora, as suas prioridades.

A obsessão de vencer, que não o desejo, desapareceu, e, por isso mesmo, Riccardo Patrese é, hoje em dia, não só um homem mais tranquilo e sociável, mas, igualmente, um piloto mais eficiente que no passado. Com 36 anos, o italiano ainda tem muito para dar à F1 e, ao fim e ao cabo, 1994 e os 250 Grande Prêmios não estão longe…


Mais cinco anos?

Entretanto ele lembra: “Se me dessem a escolher, preferia ter o recorde de vitórias ou de títulos mundiais, mas estes 200 GPs representam 14 anos na F1, 14 temporadas nas quais os chefes de equipe mostraram confiança em mim. Comecei em 1977 e nunca deixei de ter um carro para pilotar e nunca deixei de me qualificar para um GP.

No entanto, vitórias são apenas vitórias, e houve muitos outros momentos importantes na minha carreira. Para se estar há tanto tempo na F1 foi preciso manter um bom relacionamento com muita gente, e isso é muito importante para mim, para a minha felicidade como homem.

Por que razão não haverei de completar 250 GPs? Ainda não me sinto um veterano da F1. Sou simplesmente o piloto mais experiente e isso não é a mesma coisa.

A minha maior recordação nestes 14 anos de F1 é o motor turbo. Aqueles mais de 1000 cavalos nas nossas costas foram uma sensação inesquecível!”

By Luis Vasconcelos and Francisco Santos (1990), from my private collection. Published here for non-profit, entertainment-only purposes. No copyright infringement is intended.